top of page
Buscar

Filosofia no IFRS: que identidade estamos construindo?

10 de set.
8 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A Semana da Filosofia 2026 reuniu mais de 800 participantes e colocou em debate uma questão que ultrapassa a programação do evento: há uma identidade da Filosofia no IFRS — e deveria haver?

Mesa de abertura do III Colóquio sobre Ensino de Filosofia no IFRS, com a participação de Sidnei Dal’ Agnol, Diretor-Geral do IFRS – Campus Erechim; Ernani Gottardo, Diretor de Ensino; Rosiane Serrano, Coordenadora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação; Maria Inês Varela Paim, Coordenadora do Núcleo de Memória do Campus; e Giovane Jardim, Coordenador do evento.
Mesa de abertura do III Colóquio sobre Ensino de Filosofia no IFRS, com a participação de Sidnei Dal’ Agnol, Diretor-Geral do IFRS – Campus Erechim; Ernani Gottardo, Diretor de Ensino; Rosiane Serrano, Coordenadora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação; Maria Inês Varela Paim, Coordenadora do Núcleo de Memória do Campus; e Giovane Jardim, Coordenador do evento.















Entre os dias 24 e 28 de agosto de 2026, o IFRS – Campus Erechim como espaço e lugar de encontro, diálogo e produção filosófica, foi sede do I Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão em Filosofia e do III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS. Ao longo de cinco dias, mais de 800 participantes, em atividades presenciais e/ou virtuais, estiveram envolvidos em uma programação que reuniu estudantes da educação básica, estudantes e servidores do IFRS, pesquisadores, professores e comunidade externa.

A Semana da Filosofia 2026  contou com palestras, mesas temáticas, oficinas, apresentações de trabalhos, mostra de cinema, exposição de banners e materiais gráficos, além de vídeos, podcasts, documentários e atividades culturais. A programação também possibilitou a participação virtual, ampliando o alcance do evento e aproximando diferentes campi do IFRS, instituições de ensino e pesquisa e comunidades de diferentes lugares.

Mais do que apresentar uma programação diversificada, entretanto, o evento colocou em movimento uma questão que permanece para além de seu encerramento: o que significa fazer Filosofia no IFRS? E, junto com ela, uma pergunta ainda mais ampla: há uma identidade própria da Filosofia no Instituto Federal ou seria justamente sua pluralidade uma de suas características fundamentais?


Uma Filosofia que se constrói em movimento

Pensar uma possível identidade da Filosofia no IFRS não significa necessariamente buscar uma definição única para aquilo que deve ser considerado filosófico. A própria programação da Semana da Filosofia revelou a diversidade de modos pelos quais a Filosofia vem sendo praticada no Instituto, envolvendo diferentes campos, autores, problemas e experiências de formação. Questões relacionadas à democracia e aos direitos humanos, ética, inteligência artificial, educação, tecnologia, memória, política, pensamento crítico, Antropoceno, gênero, trabalho e formação humana estiveram presentes ao lado de investigações sobre autores e problemas clássicos da tradição filosófica. Essa diversidade temática também se manifestou nas diferentes linguagens utilizadas pelos participantes, que apresentaram suas produções por meio de comunicações acadêmicas, cartazes, jornais, folders, infográficos, vídeos, podcasts, documentários, banners e outras formas de expressão.

A experiência da Semana da Filosofia permite perceber, assim, que a Filosofia no IFRS não se limita a uma única forma de produção ou circulação do pensamento. Ela acontece na pesquisa, na sala de aula, nos projetos de extensão, nas atividades culturais, nas escolas, nos laboratórios e nos encontros entre estudantes, professores e comunidade.


Existe uma identidade da Filosofia no IFRS?

A pergunta sobre uma identidade filosófica do IFRS não possui uma resposta simples — e talvez seja justamente por isso que ela seja importante. O Instituto Federal possui uma característica institucional singular, reunindo educação básica, educação profissional e tecnológica, graduação, pesquisa e extensão. Nesse contexto, a Filosofia encontra diferentes sujeitos, diferentes níveis de formação e diferentes problemas.

Fazer Filosofia em um Instituto Federal não é necessariamente o mesmo que fazer Filosofia em uma universidade. A presença da Filosofia em uma instituição voltada também à formação profissional e tecnológica coloca questões particulares: como pensar a formação humana em uma instituição marcada pelo trabalho e pela tecnologia? Como articular conhecimento técnico e reflexão crítica? Que papel ocupa a Filosofia diante das transformações produzidas pela inteligência artificial? Como pensar democracia, direitos humanos e cidadania em espaços de formação profissional?

A Semana da Filosofia não pretendeu oferecer respostas definitivas a essas questões. Ao reunir diferentes experiências, criou condições para que elas pudessem ser formuladas e discutidas coletivamente. Talvez uma identidade da Filosofia no IFRS não seja algo que esteja pronto e precise apenas ser descoberto, mas algo que esteja sendo construído nas experiências de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas cotidianamente pelos diferentes sujeitos e espaços do Instituto.


Entre a identidade e a pluralidade

Falar em identidade, contudo, pode ser uma questão delicada para a própria Filosofia. Uma identidade excessivamente fechada poderia transformar a Filosofia em um conjunto de características previamente determinadas: uma maneira correta de ensinar, um repertório obrigatório de autores, uma metodologia única ou uma definição restrita do que pode ser considerado produção filosófica.

A experiência da Semana da Filosofia aponta para outra direção. O evento reuniu diferentes perspectivas e modos de pensar, aproximando campi do IFRS, escolas, institutos federais, universidades, pesquisadores, professores e estudantes. Colocou lado a lado a Filosofia acadêmica, a Filosofia ensinada na educação básica, projetos de pesquisa, ações de extensão e diferentes experiências formativas.

Nesse sentido, talvez a identidade da Filosofia no IFRS não esteja na homogeneidade, mas na capacidade de produzir encontros entre diferenças. Uma Filosofia que se faz no Instituto pode ser reconhecida justamente por sua condição de estar entre lugares: entre a escola e a instituição de educação superior, entre formação geral e formação profissional, entre tradição e contemporaneidade, entre teoria e prática, entre pesquisa e extensão.


A Filosofia também se faz na escola

Um dos aspectos significativos da Semana da Filosofia foi a presença de estudantes da educação básica. As oficinas e atividades realizadas com escolas municipais de Erechim aproximaram crianças e adolescentes do Campus e mostraram que a Filosofia não precisa esperar a chegada à universidade para acontecer.

A participação desses estudantes reforçou a compreensão da Filosofia como experiência de formação e como exercício do pensamento. Ao perguntar, problematizar, argumentar e criar, crianças e adolescentes também participam da construção de experiências filosóficas. A pergunta filosófica não pertence exclusivamente ao especialista: ela pode nascer na escola, no laboratório, no cotidiano, em uma conversa ou diante de uma obra de arte, de uma tecnologia ou de um problema político.

A presença das escolas na Semana da Filosofia contribuiu, dessa forma, para ampliar a própria compreensão sobre o lugar da Filosofia na educação e sobre as possibilidades de diálogo entre o Instituto Federal e a comunidade.


Ensino, pesquisa e extensão em diálogo

O próprio nome do I Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão em Filosofia expressa uma aposta na aproximação entre dimensões que muitas vezes aparecem separadas na vida acadêmica. No ensino, a Filosofia aparece como experiência de formação e exercício do pensamento crítico; na pesquisa, transforma problemas em questões investigáveis e produz conhecimento; na extensão, estabelece diálogo com a comunidade e permite que o conhecimento filosófico circule para além dos espaços institucionais.

Durante o evento, diferentes projetos desenvolvidos no Campus Erechim apresentaram experiências relacionadas à Filosofia Política, educação em direitos humanos, memória, democracia, formação humana e ensino de Filosofia. Entre eles estiveram iniciativas como “Leituras e Estudos Orientados em Filosofia”, “O IFRS – Campus Erechim como tempo e espaço de memórias”, “Pensando em Educação em Direitos Humanos”, “Pluralidade, Mundo e Política” e “Memória, Democracia e Direitos Humanos na Região do Alto Uruguai Gaúcho”.

A presença de experiências desenvolvidas em outros campi também mostrou que a discussão sobre o lugar da Filosofia não pertence exclusivamente a Erechim. Ela pode contribuir para a construção de um diálogo mais amplo sobre a presença, as possibilidades e os desafios da Filosofia no próprio IFRS.


III Colóquio: pensar o ensino de Filosofia no IFRS

O III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS acrescentou outra dimensão fundamental à discussão: se a Filosofia ocupa diferentes lugares dentro do Instituto, é preciso perguntar também como ela deve ser ensinada.

O ensino de Filosofia na Educação Profissional e Tecnológica envolve desafios específicos. Como formar estudantes capazes de atuar profissionalmente sem reduzir a educação à preparação para o mercado de trabalho? Como preservar o espaço para a pergunta, a reflexão e a crítica em uma formação marcada pela técnica? Como fazer da Filosofia uma experiência significativa para estudantes que vivem em uma sociedade profundamente atravessada pela tecnologia?

Essas questões colocam o ensino de Filosofia diante de uma tarefa simultaneamente pedagógica, política e filosófica. Elas também ajudam a compreender que discutir uma possível identidade da Filosofia no IFRS significa discutir não apenas o que se ensina, mas que formação humana se pretende construir no Instituto.


Uma identidade que talvez ainda esteja por vir

Ao final da Semana da Filosofia 2026, permanece aberta a questão que atravessou, de diferentes maneiras, as atividades realizadas: o que queremos dizer quando falamos em Filosofia no IFRS?

Talvez seja cedo para falar em uma identidade consolidada. E talvez não seja necessário que ela exista como algo fixo. O que a experiência do evento demonstra é a existência de um movimento filosófico no IFRS, formado por estudantes que pesquisam e criam, professores que ensinam e investigam, escolas que desenvolvem experiências filosóficas, projetos de extensão que dialogam com a comunidade e diferentes campi que compartilham questões e práticas.

Se há uma identidade a ser construída, ela talvez não esteja na definição antecipada do que a Filosofia deve ser, mas na disposição para pensar coletivamente aquilo que ela pode vir a ser. Uma identidade aberta, plural e em movimento, capaz de acolher diferentes tradições filosóficas e, ao mesmo tempo, responder aos problemas concretos que atravessam a educação profissional e tecnológica.


Filosofia em movimento

A Semana da Filosofia 2026 terminou, mas as questões colocadas por ela permanecem. Mais de 800 participantes, presencialmente e/ou virtualmente, fizeram parte de uma experiência que aproximou diferentes sujeitos e instituições em torno do pensamento filosófico.

Ao reunir escolas, campi do IFRS, universidades, institutos federais, pesquisadores, professores, estudantes e comunidade externa, o evento mostrou que a Filosofia pode ocupar um lugar particular dentro da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Um lugar que não precisa ser definido de uma vez por todas, mas que pode ser construído a partir das experiências concretas de ensino, pesquisa, extensão e formação.

Talvez a Filosofia no IFRS seja justamente isso: um pensamento que se movimenta entre a formação profissional e a formação humana; entre a tradição e os problemas do presente; entre a escola, o campus e a comunidade; entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser. E, se uma identidade da Filosofia no IFRS deve existir, talvez sua primeira característica seja esta: a capacidade de continuar perguntando.


Uma construção coletiva

A realização do I Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão em Filosofia e do III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS foi resultado de uma construção coletiva envolvendo o LAFIPO – Laboratório de Filosofia Política, o Grupo de Pesquisa Memória, Democracia e Direitos Humanos e o Núcleo de Memória do IFRS – Campus Erechim (NuMem). A realização contou com a participação e o empenho de estudantes, bolsistas, docentes e servidores do IFRS, além de escolas, pesquisadores, instituições de ensino e demais parceiros que contribuíram para a programação. O NuMem apoiou as atividades, fortalecendo a articulação entre memória, educação, patrimônio e formação e contribuindo para que o Campus Erechim se constituísse como espaço de encontro, diálogo e produção de novas experiências. A iniciativa também contou com apoio e financiamento da FAPERGS, fundamentais para a concretização da Semana da Filosofia.

A organização agradece a todos os estudantes, escolas, professores, pesquisadores, servidores, palestrantes, instituições parceiras e participantes que contribuíram para a realização do evento e para transformar o Campus Erechim, durante uma semana, em um espaço de encontro, criação e pensamento.


Pensar a Filosofia não é apenas estar presente em um tempo e espaço — escola, campus, instituto ou universidade. É perguntar que lugar/tempo/espaço queremos construir, e portanto, sobre quais experiências formativas estamos ou não oportunizando.


Giovane Rodrigues Jardim

10 de setembro de 2026.


 
 
 

Comentários


GRUPO DE PESQUISA MEMÓRIA, DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS

Laboratório de Filosofia Política (Em construção)

Coordenador: Prof. Dr. Giovane Rodrigues Jardim

R. Domingos Zanella, 104 - Três Vendas, Erechim - RS, 99700-000

bottom of page