CARTA DE ERECHIM PELA FILOSOFIA

Erechim, agosto de 2026.
Nós, professoras e professores, técnicas e técnicos administrativos, pesquisadoras e pesquisadores, estudantes e demais participantes reunidos em Erechim, entre os dias 24 e 28 de agosto de 2026, por ocasião do I Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão em Filosofia e do III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS — oriundos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), da rede municipal de ensino de Erechim e de municípios da região do Alto Uruguai, da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, de outros institutos federais (IFSUL, IFFAR e IFC) e de universidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina (UFPEL, UFFS e Unochapecó) —, vimos a público manifestar nossa proposta, nosso apoio e nosso chamado em defesa da Filosofia — não apenas como componente curricular, mas como experiência formativa indispensável à formação integral do ser humano.
Este encontro nasce de um compromisso comum assumido por docentes e técnicos do IFRS nomeados, formados e/ou interessados na Filosofia, em suas perspectivas e em seus limites. Reunindo mais de oitocentos participantes em 2026— estudantes da educação básica, estudantes e servidores do IFRS, pesquisadores, professores e comunidade externa —, na terceira edição de um Colóquio itinerante sobre o Ensino de Filosofia no IFRS que já passou pelos campi Vacaria (2024) e pela Restinga (2025), e que caminha com a expectativa de reunir-se em Bento Gonçalves (2027). A cada edição temos construído, coletiva e persistentemente, um espaço para pensar o lugar da Filosofia no IFRS e na educação de nosso país. É dessa continuidade — e da responsabilidade que ela nos impõe — que falamos nesta carta.
Escrevemos, antes de tudo, como quem propõe. O encontro em Erechim mostrou que a Filosofia não se limita a uma única forma de produzir ou fazer circular o pensamento: ela acontece na pesquisa, na sala de aula, nos projetos de extensão, nas atividades culturais, nas escolas e nos laboratórios, no encontro entre estudantes, professores e comunidade. Mais do que um conteúdo a transmitir, a Filosofia é uma experiência formativa — o exercício de perguntar, problematizar, argumentar e criar. Por isso ela é parte incontornável da formação integral do ser humano: aquela que articula trabalho, ciência, cultura e tecnologia e que se recusa a reduzir a educação à preparação para o mercado. Numa instituição singularizada pela formação profissional e tecnológica, é também a Filosofia que ajuda a preservar o espaço da pergunta, da reflexão e da crítica, mantendo viva a questão sobre que formação humana desejamos construir. Não se trata, portanto, de lamentar o que se perde, mas de propor o que se pode construir.
Às redes municipais de ensino da região — e, de modo especial, àquelas que já preveem a Filosofia no currículo da educação básica — propomos que a nomeação e a designação de docentes para essa disciplina priorizem professoras e professores licenciados em Filosofia, e não profissionais de outras áreas alocados apenas para completar carga horária. A Filosofia tem objeto, método e tradição próprios, e conduzi-la como experiência formativa exige formação específica. As oficinas realizadas com escolas de Erechim ao longo do evento mostraram que a Filosofia não precisa esperar a chegada à universidade para acontecer: crianças e adolescentes também constroem experiências filosóficas quando perguntam, problematizam e criam. E essa não é uma exigência sem lastro em nossa realidade: contamos, na própria cidade de Erechim, com uma universidade federal que há anos forma licenciadas e licenciados em Filosofia — profissionais qualificados, dispostos e aptos a atuar na região. Priorizá-los não é um ideal distante, mas uma escolha possível e ao alcance de nossas redes. Que a presença da Filosofia no currículo venha, pois, acompanhada da presença de quem foi formado para ensiná-la.
Às redes estaduais de ensino — e, de modo especial as do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina — propomos que valorizem efetivamente a Filosofia já presente em sua proposta formativa, sobretudo no ensino médio — etapa em que a juventude começa a interrogar o mundo, a si mesma e o próprio tempo. É nesse momento decisivo da formação que a Filosofia oferece o que lhe é próprio: o exercício do pensamento rigoroso, a leitura crítica da realidade, a construção de argumentos e o diálogo entre diferentes visões de mundo. Resguardar seu espaço significa garantir carga horária adequada, assegurar docentes formados e concursados na área e reconhecer a Filosofia como parte essencial — e não acessória — da formação integral dos estudantes. Sabemos que, a cada reforma curricular, a Filosofia costuma ser das primeiras a ter seu espaço reduzido, diluído em componentes genéricos ou tratado como conteúdo dispensável. Contra essa tendência, reafirmamos que pensar filosoficamente não é privilégio de poucos, mas direito de todas e todos. Que a Filosofia, portanto, não seja a primeira a ceder lugar diante de cada mudança, mas seja reafirmada e ampliada como direito formativo de toda a juventude gaúcha e catarinense — condição para uma educação pública crítica, democrática e verdadeiramente emancipadora.
Às universidades — e, de modo especial as que possuem cursos de licenciatura em Filosofia e/ou de mestrado e doutorado na área — dirigimos um pedido que é também um convite à parceria: que assumam, com centralidade, seu papel na formação de professoras e professores de Filosofia, fortalecendo os cursos de licenciatura e as políticas de iniciação à docência, como o PIBID e a Residência Pedagógica, que aproximam os futuros docentes da realidade concreta da escola pública. Que ampliem e qualifiquem os estágios e as ações articuladas com a educação básica, promovendo espaços permanentes de debate e cooperação com as redes municipais e estaduais de ensino — de modo que a formação inicial dialogue efetivamente com o chão da sala de aula. E que essa parceria se traduza, sobretudo, em oportunidades reais de trabalho para os licenciados, para que a formação em Filosofia não se encerre no diploma, mas encontre lugar no ensino, na pesquisa e na extensão. Formar bem, afinal, exige também garantir a quem se forma um horizonte profissional digno e um espaço efetivo de atuação.
Aos institutos federais — e, de modo especial ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul — dirigimo-nos com apoio e com esperança. Com apoio, porque reconhecemos na Rede Federal um dos mais importantes projetos de educação pública, gratuita e de qualidade do país, capaz de unir, num mesmo percurso formativo, o rigor científico, a formação técnica e a reflexão humanística. Com esperança, porque enxergamos no IFRS um espaço fértil para que a Filosofia não seja apenas mantida, mas efetivamente fortalecida como dimensão essencial da formação integral que a instituição se propõe a oferecer. Nesse sentido, propomos que a Filosofia seja consolidada e valorizada na educação profissional e tecnológica, resguardando seu espaço nos currículos, assegurando docentes da área em todos os campi e reconhecendo seu papel na formação de sujeitos críticos, éticos e comprometidos com a transformação social. Que a presença da Filosofia no IFRS seja reafirmada como parte constitutiva de sua proposta de educação integral.
Assim, almejamos que o IFRS assuma as Humanidades como dimensão constitutiva da promoção da formação integral de seus estudantes, em acordo com o expresso em sua missão e, nesse horizonte, construa uma proposta de Filosofia articulada entre os diferentes campi — capaz de dar coerência, continuidade e força a uma área hoje dispersa. Propomos que o ensino, a pesquisa e a extensão em Filosofia sejam igualmente valorizados e incentivados, reconhecendo-a como território legítimo de produção de conhecimento e de diálogo com as comunidades. Ao mesmo tempo em que partilhamos as ações de ensino, pesquisa e extensão no III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS, também nos deparamos com relatos de reformulações de projetos pedagógicos de cursos já consolidados em que a Filosofia tem sido drasticamente diminuída e/ou totalmente excluída, bem como que cursos novos de ensino médio integrado estão sendo criados sem a presença da disciplina enquanto componente curricular.
A partir disso pedimos um olhar atento à importância das conexões interdisciplinares que a Filosofia permite e estimula, à presença dos conteúdos filosóficos nos diferentes componentes curriculares, tanto no ensino médio como no ensino superior, reconhecendo sua transversalidade sem convertê-la em pretexto para a diluição. E pedimos que se enfrente, com seriedade, o desaparecimento da disciplina de Filosofia em alguns campi como tem ocorrido com a reformulação de cursos, e que se tenha especial cuidado com os campi novos e com os novos cursos que serão criados, para que a Filosofia não se dissolva sob o rótulo da transdisciplinaridade. Transversal, sim; ausente, jamais. Afinal, pensar a Filosofia no IFRS é discutir não apenas o que se ensina, mas que formação humana se pretende construir.
Aos colegas do IFRS, lançamos ainda o apelo por um diálogo maior entre as nossas áreas. É o próprio caminho percorrido de Vacaria à Restinga, e da Restinga a Erechim, que nos autoriza a ampliar esse convite: chamamos as professoras e os professores docentes e formados em Geografia, Sociologia, História, Filosofia e áreas afins a pensarmos, juntos, encontros e diálogos das Humanidades — para refletir sobre o nosso lugar e o nosso papel na educação profissional e tecnológica. Que a expectativa de nos reencontrarmos em Bento Gonçalves, em 2027, seja também a expectativa de uma agenda comum das Humanidades no IFRS, construída coletivamente e desde já.
Por fim, escrevemos como quem apoia e incentiva. Manifestamos nossa solidariedade a todas as colegas e a todos os colegas que sustentam a Filosofia e as Humanidades em salas de aula, laboratórios, grupos de pesquisa e projetos de extensão, muitas vezes em condições adversas — como o excesso de carga horária e o número elevado de turmas e de estudantes —, e colocamo-nos à disposição para colaborar com gestores, coordenações e redes de ensino na construção de políticas que fortaleçam a área. Pensar a Filosofia, afinal, não é apenas estar presente em um tempo e em um espaço — escola, campus, instituto ou universidade. É perguntar que tempo e que espaço queremos construir e, portanto, que experiências formativas estamos, ou não, oportunizando às nossas comunidades. Que esta carta, nascida de um encontro dedicado ao ensino, à pesquisa e à extensão em Filosofia, seja lida como aquilo que é: uma proposta, um convite ao diálogo e um compromisso público com a permanência do pensamento — e com uma formação verdadeiramente integral — em nossas escolas, universidades e institutos.
Em defesa da Filosofia — pela sua presença, pela sua qualidade e pelo seu futuro. Porque, se há uma característica que desejamos para a Filosofia no IFRS, é esta: a capacidade de continuar perguntando.
Participantes do I Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão em Filosofia e do
III Colóquio sobre o Ensino de Filosofia no IFRS.
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