



IFRS Campus Erechim,
tempo e espaço de memória
Reunimos neste espaço os materiais resultantes de projetos de pesquisa desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa Memória, Democracia e Direitos Humanos e pelo Laboratório de Filosofia Política sobre o IFRS Campus Erechim. A partir de 2026, em colaboração com o Núcleo de Memória do IFRS Campus Erechim, teve início um trabalho de coleta e preservação de fotografias, documentos, narrativas e objetos, com o objetivo de compreender a instituição como tempo e espaço de memória, bem como um lugar de construção, disputa e ressignificação de sentidos e significados.

As Ferrugens da Memória
Em uma das laterais do Campus Erechim, quase escondido entre a vegetação e distante do fluxo cotidiano de estudantes e servidores, encontra-se um antigo portão de metal. Hoje, uma corrente impede sua abertura. A ferrugem espalha-se pelas chapas, as marcas do tempo corroem a pintura e a passagem já não cumpre a função para a qual foi construída. À primeira vista, trata-se apenas de uma estrutura envelhecida, esquecida pela dinâmica institucional. Mas, ao olhar com mais atenção, percebe-se que suas ferrugens contam uma história.
Antes de ser Campus Erechim do Instituto Federal, este lugar abrigou uma escola confessional e foi também residência de religiosas. O portão, agora fechado, já foi uma passagem cotidiana. Por ele circularam estudantes, professoras, irmãs, funcionários, famílias e visitantes. Cada travessia carregava expectativas, afetos, rotinas e experiências que ajudaram a construir os significados desse espaço. O que hoje parece imóvel e silencioso já foi cenário de encontros, despedidas, aprendizagens e formas de convivência que marcaram diferentes gerações.
As ferrugens que cobrem o metal podem ser lidas como uma metáfora da própria memória. Assim como o tempo deixa marcas visíveis sobre a matéria, também deposita camadas sobre as lembranças. Algumas permanecem nítidas; outras tornam-se fragmentadas, quase imperceptíveis. Nenhuma memória atravessa os anos sem transformações. Ela se desgasta, é reinterpretada, silenciada ou reativada conforme as necessidades e os interesses do presente.
Por isso, recordar não significa remover a ferrugem para encontrar uma verdade intacta escondida por baixo dela. O trabalho da memória é mais complexo. Trata-se de interpretar marcas, rastros e vestígios. É perguntar sobre aquilo que já não está imediatamente visível. Quem utilizava esse portão? Para onde conduzia? Que histórias passaram por ele? O que se perdeu quando deixou de ser utilizado? E, sobretudo, quem ainda se lembra?
Essas perguntas revelam que a memória não é apenas individual. Ela é pública e coletiva. Os lugares guardam sentidos porque diferentes pessoas os habitam, os narram e os transformam em referências para compreender o passado. Contudo, a memória pública é também um campo de disputas. Nem todas as experiências são lembradas da mesma forma. Algumas são incorporadas às narrativas institucionais; outras permanecem esquecidas, à margem dos registros oficiais. Entre o que é preservado e o que é silenciado existe um permanente processo de negociação sobre os significados do passado.
O antigo portão materializa essa tensão. Fechado por uma corrente, ele parece indicar um limite entre tempos distintos: de um lado, a antiga escola confessional e a residência das religiosas; de outro, o atual Instituto Federal. Mas a história não se organiza em compartimentos tão definidos. Os tempos coexistem. As marcas da antiga instituição permanecem inscritas na paisagem, nos edifícios, nos objetos e nas lembranças daqueles que viveram esses espaços de maneiras diferentes.
Talvez seja essa a principal lição das ferrugens da memória. Elas nos mostram que o passado não desaparece por completo. Mesmo quando os caminhos são fechados, quando os usos mudam e quando determinadas histórias parecem esquecidas, permanecem vestígios que insistem em interpelar o presente. O velho portão já não permite a passagem dos corpos, mas continua abrindo caminhos para a reflexão. Em suas ferrugens, acumulam-se não apenas os efeitos do tempo sobre o metal, mas também as marcas das múltiplas histórias, experiências e disputas de sentido que constituem a memória deste lugar.
Marcações de espaços
Uma das propostas consiste em identificar e sinalizar determinados espaços do campus, destacando seus diferentes usos ao longo do tempo. A iniciativa busca evidenciar as transformações ocorridas nesses ambientes e preservar as memórias associadas às múltiplas experiências vividas pela comunidade acadêmica, contribuindo para a compreensão da história e da identidade institucional.
Arquivo Oral
Outra proposta consiste na construção de um arquivo oral, por meio da coleta, registro e preservação de depoimentos de estudantes, servidores, terceirizados e demais integrantes da comunidade acadêmica. A iniciativa busca salvaguardar memórias, experiências e narrativas que contribuam para a compreensão da trajetória histórica do IFRS Campus Erechim e dos significados atribuídos à instituição por seus diferentes sujeitos.